Com
o advento da Lei nº 12.844, de 2013, que deu nova redação ao artigo 7º da Lei
nº 12.546, de 2011, as empresas de construção civil, assim como outras empresas
com atividades diversas, passaram a contribuir para a Seguridade Social sobre
suas receitas brutas, às alíquotas que variam de 1% a 2%, modificando, assim, a
base de cálculo da contribuição previdenciária patronal, antes incidente sobre
o total das remunerações pagas ou creditadas aos empregados, à alíquota de 20%,
conforme previsto no artigo 22 da Lei nº 8.212, de 1991.
Esse
regime, até então, seria aplicável até 31 de dezembro deste ano, sendo assim,
após tal data, as empresas voltariam ao regime anterior, tributando a
contribuição previdenciária patronal sobre a folha de salários. No entanto, a informação
que se tem é de que, conforme manifestação do Ministro da Fazenda, Guido
Mantega, será proposta lei que tornará permanente a "desoneração da
folha".
Essa
modificação de base de cálculo teve por objetivo desonerar a folha de
pagamentos, com a finalidade de estimular a geração de empregos no país e
melhorar a competitividade das empresas, fomentando as atividades de alguns
setores da economia, conforme se verifica na exposição de motivos nº 122. No
entanto, as empresas que possuem folha de pagamentos reduzida, com poucos
funcionários, foram prejudicas por esse novo regime, considerando que a
modificação da base de cálculo para receita bruta, mesmo que aplicadas
alíquotas menores, gerou tributo a pagar em valor superior ao devido no regime
anterior. Entre os setores mais prejudicados está o da construção civil,
considerando que, para desempenho de tal atividade, é comum a terceirização de
mão de obra.
Considerando
a terceirização de boa parte das etapas das obras, acaba que tais empresas não
possuem valor muito alto de folha de salários, sendo assim, a contribuição
previdenciária patronal tinha sua base de incidência reduzida. Por outro lado,
muitas dessas empresas possuem receita elevada, ou seja, a incidência do citado
tributo foi substituída para uma base muito superior.
A
pergunta que deve ser feita é a seguinte: Uma lei que aumenta a tributação,
substituindo de forma onerosa a base de cálculo de tributo, estimula a empresa
a contratar empregados, estimulando a geração de novos empregos? Essa lei está
fomentando a atividade dessa empresa, viabilizando melhor competitividade no
mercado?
A
resposta que se chega é de que não, considerando ser inegável o fato de que o
aumento da tributação representa menor valor disponível para investimentos da
empresa, não só desfavorecendo a contratação de novos trabalhadores como,
inclusive, ensejando a redução do quadro de empregados. Da mesma forma, esse
aumento reflete no valor de seus produtos e/ou serviços, tendo em vista a
necessidade de majoração dos preços, como forma de compensar os prejuízos com a
nova forma de tributação, piorando, consequentemente, sua competitividade no
mercado.
Nesses
casos, verifica-se que o objetivo do legislador não foi atingido, tendo em
vista que, ao invés de desonerar, acabou onerando algumas empresas, diante do
aumento da carga tributária, resultante da incidência de contribuição
previdenciária sobre a base de cálculo receita bruta. Ora, não resta dúvida de
que se a pretensão do legislador fosse aumentar a arrecadação, teria
simplesmente ocorrido a majoração da alíquota da contribuição previdenciária.
A
conclusão que se chega é de que o regime de tributação instituído pela Lei nº
12.546 é desproporcional e desarrazoado às empresas com poucos funcionários,
considerando que o meio eleito (substituição da base de incidência de
contribuição previdenciária de folha de salários para receita bruta) mostra-se
inadequado para promoção do fim pretendido pelo legislador (fomentar alguns
setores da economia).
A
nova sistemática, destarte, acabou sendo benéfica para uns, cumprindo com a sua
finalidade. Para outros, porém, acabou sendo extremamente prejudicial, tendo em
vista que resultou na majoração da carga tributária, resultado este contrário
ao objetivado pela lei. Frente a tal cenário, a Lei nº 12.546 acaba tratando as
empresas com valor reduzido de folha de salários de forma desigual frente às
demais empresas incluídas na nova sistemática. Com base nisso, não se mostra
razoável a aplicação do novo regime de tributação da contribuição
previdenciária às empresas de construção civil, frente à inocorrência de
adequação da norma ao caso concreto.
Cabe,
assim, às empresas comprovarem que foram oneradas por esse novo regime. Por sua
vez, cabe ao Poder Judiciário reduzir o âmbito de aplicação da norma, mediante
análise de cada caso concreto, caso constate efetiva majoração da carga
tributária, concedendo o direito à manutenção da tributação da contribuição
previdenciária sobre a folha de salários e, por via de consequência,
possibilitando a recuperação do valor pago a maior pelo contribuinte onerado.
Por Christian
Lisboa Rodrigues
Fonte: Valor Econômico